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O auto de fé de Cristiano

luispintolisboa
7 de out.
3 min de leitura

Ronaldo quis encostar um selecionador à parede e acabou a documentar o poder que julgava ter.


Um auto de fé era a cerimónia pública em que o condenado ouvia a sentença e abjurava os seus erros. Cristiano Ronaldo escreveu a sua sem que ninguém lha impusesse, e é essa a primeira pista. Pede desculpa, assume a culpa por ter abandonado o estágio, reclama uma punição sem atenuantes e, no mesmo gesto, fixa a causa de tudo na palavra que o selecionador lhe terá quebrado duas vezes. Quem se confessa assim não abjura coisa nenhuma. Dita os termos do julgamento.


Tudo o que o comunicado conta é a versão de Ronaldo, e Jorge Jesus ainda não respondeu. Mas é a versão que o próprio capitão escolheu publicar ao mundo, e por isso é profundamente reveladora. O que dela resulta é a conceção da Seleção Nacional como uma extensão da sua quinta pessoal. Revela que foi consultado sobre a contratação do novo selecionador antes da sua apresentação. Confirma que as conversas mais reservadas sobre a gestão da equipa contaram com a mediação de dirigentes do seu clube na Arábia Saudita, imiscuídos em matérias exclusivamente da Federação. E admite que, após o jogo na Noruega, validou um guião de oito pontos para ser lido por Jesus na sala de imprensa, exigindo que o treinador admitisse o erro técnico de o ter posto a aquecer sem o lançar, o colocasse no patamar divino de Pelé ou Maradona e declarasse publicamente que o queria "muito". Quando a conferência não seguiu esse alinhamento de vassalagem, Ronaldo não viu uma divergência natural de gestão desportiva. Viu uma lesão de majestade, falou em quebra de palavra e fez as malas. Preso na armadura do seu complexo narcísico, o capitão mostra-se incapaz de notar as contradições do próprio discurso. Cego por este culto de si mesmo, nem sequer percebeu que o manifesto com que pretendia vitimizar-se é a prova inequívoca do seu abuso de poder.


A este divórcio da realidade institucional soma-se a cegueira perante a realidade do relvado. Estatística e desportivamente, Ronaldo é há vários anos uma sombra da figura colossal que já foi. As exibições pálidas da Seleção Nacional no último Mundial e no Europeu anterior deixaram evidente o custo de subordinar o coletivo a um titular incriticável que já não tem ritmo nem idade para responder às exigências deste nível.


Resta a dimensão regulamentar, a responsabilidade do poder e a escolha ética. Convém recordar que em 2011 Ricardo Carvalho foi suspenso por um ano após abandonar um estágio, ao abrigo de um regulamento que prevê penas até vinte e quatro meses. Uma moldura dessa gravidade devolveria Ronaldo à Seleção à beira dos 43 anos, e qualquer medida superior arrastá-lo-ia para lá do Europeu de 2028.


Mas recuemos à origem de tudo isto: todo este terramoto institucional acontece, no fundo, porque Cristiano Ronaldo aqueceu e não entrou. Sinceramente. Sem nunca nomear Jorge Jesus, o comunicado pretende atirar toda a batata quente para o selecionador, que fica agora encostado à parede: se negar esta versão, inviabiliza em definitivo a relação com o capitão, se a aceitar, abdica da sua autoridade. Resta saber se Ronaldo saberá algum dia parar e até quando continuaremos, enquanto país, a alimentar este egocentrismo desmedido e tóxico. Ante o declínio do mito e a soberania da instituição, a minha escolha está feita: eu sou português, não sou ronaldês.



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Planto mudança, colho evolução.

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