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Mário Cesariny: Liberdade, Amor e Poesia

  • luispintolisboa
  • há 6 dias
  • 9 min de leitura

Mário Cesariny nasceu em Lisboa a 9 de agosto de 1923 e morreu na mesma cidade a 26 de novembro de 2006. Entre essas duas datas, viveu como poucos a liberdade de não aceitar o mundo tal como lhe era entregue. Poeta, pintor, ensaísta, tradutor e uma das figuras maiores do surrealismo português, Cesariny fez da criação uma forma de resistência, do amor uma experiência de liberdade e da poesia uma maneira de desobedecer àquilo que parecia inevitável. Talvez por isso continue, ainda hoje, a ser menos uma figura do passado do que uma pergunta que nos chega intacta ao presente: o que significa, afinal, ser livre?  


Há homens que passam pela vida como quem cumpre um horário de expediente, e há Mário Cesariny. Não viveu a vida a modos brandos. Como ele próprio deixou registado em A PHALA, só há três maneiras de estar verdadeiramente no mundo: ou bêbado, ou apaixonado, ou poeta. Cesariny parece ter escolhido as três ao mesmo tempo, elevando a existência a uma espécie de insurreição poética permanente. Não se tratava apenas de fazer poesia ou pintura. Tratava-se de encontrar uma maneira de viver que não estivesse submetida às convenções, às expectativas ou às formas de normalidade que a sociedade lhe queria impor.


A história começa cedo, nos corredores da Escola de Artes Decorativas António Arroio, onde frequentou o curso de cinzelagem e encontrou companheiros que haveriam de partilhar com ele a aventura surrealista, entre eles Artur do Cruzeiro Seixas e Fernando José Francisco. O pai, ourives de profissão, desejava encaminhá-lo para o negócio da família, mas Cesariny parecia ter outros planos para a própria vida. Chegou a frequentar um curso de habilitação às Belas-Artes, que não chegou a concluir, e estudou música com Fernando Lopes Graça, revelando-se também um talentoso pianista. A arte, porém, haveria de ser para ele muito mais do que uma profissão: seria a possibilidade de inventar a própria existência.  


Desde o final da adolescência, Cesariny e os seus companheiros frequentavam as tertúlias dos cafés de Lisboa, onde descobriam primeiro o neorrealismo e depois o surrealismo. A cidade vivia sob a sombra do Estado Novo, num país onde a censura, a vigilância e a moral conservadora procuravam determinar não apenas aquilo que as pessoas podiam dizer, mas também aquilo que podiam pensar, desejar e ser. Foi nesse contexto que o surrealismo surgiu para Cesariny não apenas como uma corrente artística, mas como uma possibilidade de libertação. Em 1947, viajou para Paris, frequentou a Académie de la Grande Chaumière e encontrou-se com André Breton. O contacto com o fundador do surrealismo francês seria decisivo e, quando regressou a Lisboa, esteve entre os impulsionadores do Grupo Surrealista de Lisboa, ao lado de António Pedro, Alexandre O’Neill, José-Augusto França, Cândido Costa Pinto, Vespeira e outros.  


O Grupo Surrealista de Lisboa nasceu como uma afirmação libertária contra as linguagens dominantes do seu tempo. Mas Cesariny nunca foi homem de aceitar facilmente uma ortodoxia, nem sequer quando essa ortodoxia vinha do próprio movimento ao qual pertencia. As divergências acabariam por afastá-lo do grupo e levariam à formação de Os Surrealistas, o grupo dissidente que reuniu Cruzeiro Seixas, António Maria Lisboa, Pedro Oom, Mário-Henrique Leiria e outros companheiros. Em 1949 e 1950, realizaram as exposições na Pathé-Baby e na Livraria Bibliófila, momentos fundamentais para a afirmação do surrealismo português.  


Ser surrealista, no entanto, nunca foi para Cesariny uma mera técnica de oficina ou uma etiqueta de salão. Não bastava pintar uma ave impossível, colocar um porco de pernas para o ar ou produzir uma imagem suficientemente estranha para reclamar o estatuto de surrealista. Como dizia, com o seu humor cortante, «é-se surrealista porque se é surrealista». E nessa frase aparentemente circular existe uma ideia profundamente séria: a liberdade artística não pode transformar-se numa nova prisão. O surrealismo, para Cesariny, significava antes de tudo liberdade, e essa liberdade passava pelo amor, pelo desejo, pela imaginação e pela poesia. Liberdade, Amor, Poesia. Com letra grande.  


Cesariny pintava, escrevia e desenhava nos cafés, recusando a clausura dos gabinetes. A criação fazia-se no contacto com a rua, com o acaso, com os outros e com a própria matéria do quotidiano. Na pintura, experimentou a colagem, o automatismo, diferentes materiais e processos que procuravam retirar ao artista o controlo absoluto sobre a obra. Inventou e desenvolveu as soprofiguras, lançando tinta sobre o suporte e soprando-a depois, deixando que o acaso e o gesto participassem na composição. Experimentou também o aquamoto e divulgou entre nós o cadáver-esquisito, esse jogo de criação coletiva em que vários artistas constroem uma obra sem conhecer inteiramente aquilo que os outros fizeram antes deles.  


Foi também através da pintura que Cesariny encontrou uma das chaves da sua poesia. A experiência plástica ensinou-o a desmembrar e a desregrar a linguagem, libertando a palavra das suas formas habituais de funcionamento. A palavra podia ser matéria, imagem, som, choque, associação inesperada. Podia aproximar aquilo que a lógica mantinha separado. Podia recuperar o absurdo, o humor, o desejo e o sonho. Como explicou numa entrevista, foi a sua experiência de «despintura» que o ajudou a «desregrar e a desmembrar a linguagem» dos seus versos.  


Na poesia deixou-nos uma das obras mais densas, vibrantes e desconcertantes da literatura portuguesa. Publicou títulos fundamentais como Corpo Visível (1950), Discurso sobre a Reabilitação do Real Quotidiano (1952), Louvor e Simplificação de Álvaro de Campos (1953), Manual de Prestidigitação (1956), Pena Capital (1957), Alguns Mitos Maiores e Alguns Mitos Menores Postos à Circulação pelo Autor (1958), Nobilíssima Visão (1959), Planisfério e Outros Poemas (1961), Um Auto para Jerusalém (1964), Titânia e A Cidade Queimada (1965), As Mãos na Água a Cabeça no Mar e Burlescas, Teóricas e Sentimentais (1972), entre muitos outros.  


A sua escrita oscila entre a ternura mais desarmante e a ironia mais corrosiva. Há nela o apelo cúmplice ao silêncio, «Faz-me o favor / de não dizer absolutamente nada!», a procura paciente pelo impossível e a capacidade de transformar o quotidiano numa matéria estranha, inquietante e inesperada. A poesia de Cesariny nunca abandona completamente o mundo, mas também nunca se resigna a aceitá-lo como ele é. Entre o real e o insólito, entre o humor e o abismo, entre o desejo e a perda, construiu uma linguagem que ainda hoje parece não ter encontrado uma maneira confortável de envelhecer.  


Durante a ditadura do Estado Novo, Cesariny pagou caro o preço de ser quem era. A sua homossexualidade, vivida de forma franca numa sociedade profundamente repressiva e moralista, colocou-o sob vigilância da Polícia Judiciária. Durante anos esteve sujeito a apresentações mensais à polícia, sob o pretexto de «suspeita de vagabundagem». A perseguição só terminaria depois do 25 de Abril de 1974.  


Esta parte da sua biografia não deve ser tratada como uma simples nota de rodapé. O desejo atravessa a poesia de Cesariny porque atravessa a própria experiência de viver. Quando escreve «Em todas as ruas te encontro / em todas as ruas te perco / conheço tão bem o teu corpo / sonhei tanto a tua figura», não está apenas a escrever um poema de amor. Está também a escrever a partir de um mundo onde determinados amores precisavam de existir à margem, onde determinados corpos eram vigiados e onde a intimidade podia tornar-se matéria de polícia.  


Para Cesariny, o amor era uma das poucas experiências capazes de tocar o sagrado. Não o sagrado das instituições, das igrejas ou das convenções, mas aquele que acontece no encontro entre duas pessoas, no desejo, na intimidade e na possibilidade de reconhecer no outro uma liberdade tão legítima quanto a nossa. É difícil não perceber a dimensão profundamente política desta ideia quando sabemos que foi um homem que viveu durante décadas sob uma ditadura que pretendia controlar os corpos, os costumes e os desejos.  


E é precisamente aqui que Cesariny continua a interrogar-nos.


Não porque devamos transformá-lo artificialmente num símbolo político do nosso tempo, nem porque devamos transportar para o presente todas as categorias com que hoje pensamos a identidade, o desejo ou a liberdade. Cesariny pertence ao seu tempo e deve ser compreendido dentro dele. Mas algumas das batalhas que atravessaram a sua vida continuam a existir, ainda que sob outras formas. A pergunta sobre quem determina aquilo que é normal, quem decide quais os desejos que podem ser vividos em público e quais as diferenças que uma sociedade está verdadeiramente disposta a aceitar continua longe de estar encerrada.


É também por isso que a sua heterodoxia permanece tão importante. Cesariny não queria simplesmente substituir uma norma por outra. Desconfiava das normas. Desconfiava das instituições. Desconfiava até das certezas que poderiam nascer dentro do próprio surrealismo. A liberdade que procurava não era apenas a liberdade de escolher entre possibilidades previamente definidas. Era a liberdade de inventar outras possibilidades.


Talvez esta seja uma das suas maiores lições para o presente. Uma sociedade pode ser formalmente livre e continuar a produzir mecanismos de conformidade. Podemos já não ter a polícia à porta por causa da nossa orientação sexual e, ainda assim, existir uma polícia invisível feita de expectativas, preconceitos, respeitabilidades e julgamentos sociais. Podemos ter liberdade de expressão e continuar a falar dentro de linguagens que herdámos sem nunca questionar quem as construiu. Podemos defender a diferença e, ao mesmo tempo, exigir que essa diferença seja suficientemente confortável para não nos incomodar.


Cesariny incomoda precisamente porque nunca foi suficientemente confortável.


A partir da década de 1980, a sua obra começou a ser reeditada e redescoberta por uma nova geração de leitores. O reconhecimento público chegaria mais tarde, com o Grande Prémio EDP de Artes Plásticas, em 2002, o Grande Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores, em 2005, e a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade, também em 2005.  


Há uma ironia bonita nessa consagração. O homem que passou grande parte da vida a desconfiar das instituições acabou reconhecido por algumas delas. Mas talvez isso não seja uma contradição. Uma sociedade também pode aprender, lentamente, a reconhecer aqueles que primeiro a obrigaram a olhar para aquilo que não queria ver.


Cesariny recebeu a Grã-Cruz da Ordem da Liberdade poucos meses antes de morrer. E talvez nenhuma distinction pudesse ter um nome mais apropriado para alguém que fez da liberdade uma matéria de vida e de criação.  


Nos últimos anos, viveu com a irmã Henriette em Campolide, num apartamento onde continuava rodeado pelos seus livros, pinturas, objetos e memórias. Em 2004, Miguel Gonçalves Mendes realizou Autografia, documentário em que Cesariny se expõe de forma particularmente intensa e revela, com a mesma mistura de ironia e vulnerabilidade que marcou a sua vida, uma parte íntima do homem por detrás da obra.  


Morreu em Lisboa, aos 83 anos. O seu espólio, doado em vida à Fundação Cupertino de Miranda, continua hoje a preservar uma parte fundamental desse universo. A Fundação, em Vila Nova de Famalicão, guarda pinturas, desenhos, manuscritos, correspondência, biblioteca, objetos e outros documentos que ajudam a compreender não apenas o artista, mas também o homem que fez da sua própria vida uma experiência permanente de criação.  


Cesariny deixou uma obra imensa, mas talvez tenha deixado sobretudo uma maneira de olhar. Uma maneira de desconfiar daquilo que parece demasiado normal. Uma maneira de compreender a criação como possibilidade de ruptura. Uma maneira de defender o desejo sem pedir desculpa pela sua existência. Uma maneira de perceber que a liberdade não é apenas uma conquista jurídica ou política, mas também uma disciplina interior, uma recusa quotidiana de aceitar que os outros decidam por nós quem devemos ser.


Por isso, quando hoje falamos de liberdade, talvez devêssemos voltar a Cesariny. Não para o transformar num santo laico da liberdade, nem para o encaixar nas nossas categorias contemporâneas, mas para aceitar a perturbação que a sua obra ainda provoca. Porque ele obriga-nos a perguntar se somos realmente tão livres quanto julgamos ser. Obriga-nos a pensar sobre a fronteira entre tolerar e aceitar, entre aceitar e compreender, entre compreender e permitir que o outro exista sem precisar de se justificar.


E talvez nos obrigue também a pensar sobre a própria arte. Para que serve criar quando o mundo já está cheio de imagens, discursos e certezas? Para Cesariny, criar parecia significar precisamente não aceitar que o mundo estivesse terminado. Era abrir uma fissura no real e espreitar para o outro lado. Era permitir que uma palavra se soltasse do seu significado, que uma imagem escapasse ao seu autor, que uma tinta soprada pelo acaso encontrasse uma forma que ninguém tinha previsto.  


Talvez seja isso que ainda procuramos quando lemos Cesariny.


Não apenas poemas.


Não apenas pinturas.


Não apenas a memória de um homem extraordinário que viveu numa época extraordinariamente difícil.


Procuramos uma possibilidade.


A possibilidade de que a vida possa ser outra coisa.


A possibilidade de que o desejo não tenha de pedir licença.


A possibilidade de que a criação possa ser uma forma de resistência.


A possibilidade de que a diferença não precise de ser domesticada para ser aceite.


A possibilidade, enfim, de que a liberdade seja mais do que o direito de escolher dentro das fronteiras que nos foram dadas.


Mário Cesariny continua a ser uma pergunta porque nunca aceitou ser uma resposta.


E talvez seja essa a razão pela qual, duas décadas depois da sua morte, ainda não conseguimos arrumá-lo definitivamente num museu, numa biblioteca ou numa história da literatura. Parte da sua obra está guardada, estudada, catalogada e preservada. Mas a parte mais importante continua solta.  


Continua a andar pelas ruas.


Continua a desarrumar as palavras.


Continua a desafiar o bom senso.

Continua a apaixonar-se.


Continua a rir-se de nós.


E continua, talvez, a soprar sobre aquilo que julgávamos imóvel, transformando a matéria opaca do mundo numa coisa inesperadamente luminosa.


Uma máquina de passar vidro colorido.  


Ainda a trabalhar.





Bibliografia e fontes


Bibliografia

CESARINY, Mário, Pena Capital, Lisboa, Assírio & Alvim.

CESARINY, Mário, Manual de Prestidigitação, Lisboa, Assírio & Alvim.

CESARINY, Mário, A Intervenção Surrealista, Lisboa, Assírio & Alvim.

CESARINY, Mário, Corpo Visível, Lisboa, Assírio & Alvim.


Fontes consultadas

Fundação Cupertino de Miranda / Centro Português do SurrealismoDocumentação sobre a vida, obra, espólio e percurso artístico de Mário Cesariny.

Museu Nacional de Arte ContemporâneaDocumentação sobre Cesariny e o surrealismo português.

Arquivo Municipal de Lisboa / Hemeroteca DigitalFontes documentais e publicações relacionadas com o contexto cultural e artístico de Cesariny.

RTP Ensina | Mário Cesariny e o paradigma da maneira surrealista de ser e de viverMaterial audiovisual e documental sobre a vida e pensamento de Cesariny.

RTP | Autografia, de Miguel Gonçalves MendesInformação sobre o documentário Autografia, realizado em 2004.


Filme

MENDES, Miguel Gonçalves, Autografia, 2004.




 
 

Planto mudança, colho evolução.

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