Cento e três anos de Santos Simões
- luispintolisboa
- há 3 dias
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Há homens que não se medem pelos cargos que ocuparam, mas pela quantidade de silêncio que se recusaram a fazer. Joaquim António dos Santos Simões nasceu em Espinhal, freguesia de Penela, a 12 de agosto de 1923, e hoje, ao completar cento e três anos sobre esse nascimento, a sua vida continua a ler-se como um longo desacato contra a resignação.
Coimbra foi a sua primeira trincheira, ainda que disfarçada de universidade. Entre os corredores da Associação Académica, que presidiu, e o palco do Teatro dos Estudantes, que dirigiu e encenou, Santos Simões aprendeu cedo que a cultura e a insubmissão nascem do mesmo gesto. Licenciado em Ciências Matemáticas e formado como engenheiro geógrafo, integrou o MUD Juvenil e apoiou, em 1948, a candidatura de Norton de Matos à presidência da República. A PIDE, atenta como sempre esteve aos homens de convicção, abriu-lhe o primeiro processo ainda antes de ele completar vinte e cinco anos.
Em 1957, mudou-se para Guimarães, cidade que viria a adotá-lo como quem adota um filho tardio e definitivo. Professor de Matemática na Escola Comercial e Industrial, encontrou ali um terreno fértil para transformar o associativismo local numa rede de resistência semeada pela cultura. No Círculo de Arte e Círculo Arte e Recreio tranformou o grupo de teatro no Teatro de Ensaio Raul Brandão, que dirigiu durante trinta e seis anos. Fundou o Cineclube de Guimarães, esteve ligado à Livraria Raul Brandão, ponto de distribuição discreta de livros proibidos entregues em casa para escapar à vigilância policial, e apoiou, em 1958, a candidatura presidencial de Humberto Delgado, que teve em Guimarães uma votação de quase quarenta e um por cento. Nenhum destes gestos era inocente. Cada sessão de cinema, cada peça encenada, cada livro emprestado era, também, uma forma de dizer não ao salazarismo.
O preço dessa coerência chegou em agosto de 1961, quando foi afastado compulsivamente do ensino por ser considerado inimigo da ditadura. Longe de o silenciar, o afastamento aprofundou a sua militância. A partir de 1963, aproximou-se do Grupo dos Democratas de Braga, ao lado de Eduardo Ribeiro, Humberto Soeiro, Lino Lima e Vítor de Sá, e passou a agir com a organização de quem sabe que a liberdade não se pede, conquista-se. Em 1965, o regime apreendeu o seu livro de contos "Suavemente Grande Avança". Meses depois, ajudou a preparar a lista da oposição pelo círculo de Braga às eleições legislativas, sabendo de antemão que a vigilância e a intimidação policial seriam a resposta previsível a qualquer ousadia democrática.
A 4 de abril de 1968, quando se preparava para viajar até França em trabalho político, foi detido pela PIDE. Levado para o Porto e depois para Caxias, onde ficou em isolamento contínuo, recebeu ainda assim a solidariedade de dezenas de anónimos e de figuras públicas de Guimarães, Braga, Famalicão e Penela, que subscreveram telegramas ao Ministro do Interior a exigir a sua libertação. Foi solto a 23 de abril, por alegada falta de elementos para o indiciar, mas a prisão não apagou nada do que ele era. Nesse mesmo ano publicou "Engrenagens do Ensino", onde já defendia o professor como cidadão-educador, e em 1969 subiu à tribuna do II Congresso da Oposição Democrática, em Aveiro, para discutir a democratização do ensino português. Candidatou-se pela CDE ao círculo de Braga, redigiu o documento sobre política de educação e viu a sua lista alcançar vinte por cento dos votos em Guimarães, um resultado muito acima da média distrital, obtido debaixo de um regime que fazia tudo para que a oposição não existisse.
A década seguinte não abrandou o seu passo. Em 1970 publicou "Mas o Melhor do Mundo São as Crianças", também proibido e apreendido, e em 1972 assumiu a presidência portuguesa do Conselho Mundial da Paz. Em abril de 1973, no III Congresso da Oposição Democrática, subscreveu a tese segundo a qual a igualdade de oportunidades para as crianças exige a igualdade social dos adultos, uma ideia que resume, talvez melhor do que qualquer biografia, o que ele entendia por justiça. Encabeçou nesse congresso um desfile duramente reprimido pelas forças policiais, prova de que a repressão nunca conseguiu convertê-lo em espectador da sua própria luta.
Quando a liberdade finalmente chegou, Santos Simões já a tinha ganho várias vezes em silêncio. A 26 de abril de 1974, discursou de uma varanda sobre a multidão reunida no Toural, e a sua voz, que o fascismo tanto se esforçara por calar, ecoou finalmente sem medo. Reintegrado no ensino oficial, integrou a Comissão Instaladora da Universidade do Minho, ajudou a fundar o MDP/CDE e chegou a ser proposto para governador civil de Braga e para ministro da Educação, indicações que António Spínola recusou por o considerar comunista. A recusa diz mais sobre o medo do regime do que sobre o homem que Santos Simões era.
Nas décadas seguintes, dedicou-se à Sociedade Martins Sarmento, que presidiu a partir de 1990, e à construção do Museu de Cultura Castreja e da Casa de Sarmento, sem nunca abandonar a convicção de que a cultura só tem sentido quando é também instrumento de emancipação. Faleceu a 23 de junho de 2004, poucos dias depois de uma sede um agrupamento de escolas de Guimarães ter passado a levar o seu nome e de ele próprio, numa última lição de humildade, ter recusado ser o homenageado de uma sessão em sua honra, insistindo que a homenagem pertencia às instituições e às pessoas que com ele construíram a cidade.
Escolheu, para ilustrar uma das suas últimas publicações, a imagem da miosótis, a flor a que os ingleses chamam "forget-me-not". "Não me esqueçam", pediu, discretamente, um homem que passou a vida inteira a lembrar aos outros que a liberdade e a igualdade não são dádivas, são conquistas que se defendem todos os dias. Guimarães, ao completar hoje cento e três anos sobre o seu nascimento, continua a cumprir esse pedido.



