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Gisberta: o nome que o Porto não pode esquecer

  • luispintolisboa
  • 22 de fev.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 23 de fev.

Há nomes que não cabem numa lápide. Tornam-se espelho de um tempo, de uma cidade, de um país. Gisberta Salce Júnior é um desses nomes.


Nasceu em São Paulo, em 1960. Foi-lhe atribuído o sexo masculino à nascença, herdou o nome do pai e o “Júnior” que carregava essa marca. Mas, muito cedo, percebeu quem era. Gisberta, gostava de dançar, de se vestir como queria, de existir com leveza. Assim, aos 14 anos disse à mãe que “ia ser mulher”. E, foi. Num tempo em que assumir-se significava enfrentar violência real.


Em consequência, aos 18 anos saiu do Brasil para fugir a uma vaga de homicídios contra pessoas trans. Passou por França, fez hormonização, moldou o corpo ao que sempre sentiu ser. Depois, instalou-se no Porto. A cidade que seria sua casa durante duas décadas.


Nos primeiros anos, Gisberta brilhou. Subia aos palcos de bares como o Kilt ou o Bustos, encarnava Marilyn Monroe e cantava “Diamonds Are a Girl’s Best Friend” com vestido rosa e taça de champanhe na mão. Era exuberante, elegante, magnética. Movia-se nas discotecas da moda, tinha amigos, tinha cães, tinha histórias.


Mas, a vida nem sempre é generosa com quem já começa em desvantagem. O trabalho nos espetáculos não chegava. Por isso, teve de fazer trabalho sexual na Rua de Santa Catarina. Por isso, passou a viver com VIH desde pelo menos meados dos anos 90. Vieram as infeções, a tuberculose, a pneumonia. Vieram as drogas. Vieram as perdas. A doença foi-lhe tirando o sustento, a casa, a força. Acabou por viver num edifício abandonado na Avenida Fernão de Magalhães, numa espécie de caverna sem luz nem água, com um poço no interior.


Mesmo aí, mantinha gestos simples de dignidade. Agradecia sempre a quem lhe dava comida. Cumprimentava. Mostrava fotografias antigas, onde surgia jovem, bonita, confiante. Havia nela uma mistura de fragilidade física e personalidade forte.


Em fevereiro de 2006, um grupo de 14 rapazes entre os 12 e os 16 anos começou a frequentar o edifício onde vivia. Primeiro curiosidade. Depois insultos. Depois agressões. Durante dias, Gisberta foi espancada com paus e pedras, humilhada, deixada no chão, nua da cintura para baixo, sem conseguir levantar-se. Pedia que a deixassem em paz. Tremia. Chorava. E ninguém a protegeu.


No dia 22 de fevereiro de 2006, ainda viva, foi embrulhada em mantas e atirada ao poço do prédio. Morreu por afogamento. Tinha 45 anos.


O processo judicial terminou com medidas tutelares para a maioria dos menores e uma pena de prisão efetiva por omissão de auxílio para o único imputável. Mas o julgamento que realmente ficou foi outro: o da sociedade portuguesa consigo própria.


Gisberta passou a simbolizar uma discriminação múltipla. Era mulher trans, imigrante brasileira, trabalhadora sexual, pessoa em situação de sem-abrigo, seropositiva. A sua morte expôs não só a violência da transfobia, mas também as falhas do sistema de proteção de menores, o abandono social e o silêncio cúmplice.


A primeira Marcha do Orgulho do Porto, em 2006, nasceu diretamente dessa indignação. Pessoas saíram à rua para dizer que não aceitavam mais mortes assim. Exigiram que a identidade de género fosse explicitamente protegida na lei e que crimes motivados por ódio não fossem tratados como episódios isolados.


Com o tempo, o nome de Gisberta foi ganhando outras formas de permanência. Pedro Abrunhosa compôs “Balada de Gisberta”, depois interpretada também por Maria Bethânia. O poema “Indulgência Plenária”, de Alberto Pimenta, evocou-a como elegia. O romance Pão de Açúcar, de Afonso Reis Cabral, revisitou o caso pela ficção. O documentário “O Teu Nome É” trouxe novas camadas de memória. Peças de teatro, exposições, debates. Em 2016, ativistas declararam o #AnoGisberta.


Houve também a luta pelo reconhecimento concreto do seu nome no espaço público. Durante anos, pedidos para que uma rua do Porto tivesse o seu nome foram recusados. Só em 2024 a Câmara aprovou a designação de Rua Gisberta Salce Júnior, na freguesia do Bonfim. Um gesto simbólico, mas importante. A cidade onde viveu e morreu inscreveu finalmente o seu nome na toponímia.


Até o “Júnior” foi discutido. Uns defendem que carrega uma marca patriarcal. Outros lembram que era assim que se apresentava. O debate revela algo maior: o direito à autodeterminação, à memória justa, à complexidade.


Desde 2011, em Portugal, deixou de ser necessário recorrer a tribunal para alterar nome e sexo identificado à nascença no registo civil. A lei evoluiu. A sociedade também, ainda que devagar. Muitas das conquistas na área da identidade de género passaram, direta ou indiretamente, pela comoção que a morte de Gisberta provocou.


Falar de Gisberta não é apenas recordar um crime brutal. É perguntar que vidas consideramos descartáveis. É lembrar que a violência começa muito antes do golpe final: começa na exclusão, no riso fácil, no insulto repetido, na indiferença.


O legado do seu nome não está só na rua que o carrega, nem nas canções que o pronunciam. Está na exigência de que nenhuma pessoa seja reduzida a um corpo vulnerável num edifício abandonado. Está na ideia simples, quase óbvia, mas ainda urgente, de que dignidade não é um privilégio. É um direito.


E há nomes que, depois de tudo, continuam a obrigar-nos a olhar de frente. Gisberta é um deles.



 
 

"Mudar o mundo, não é loucura, não é utopia, é justiça". 🩵

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