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Um povo que lê despede-se do seu escritor mais inquieto

  • luispintolisboa
  • 5 de mar.
  • 2 min de leitura

A literatura portuguesa perdeu hoje a sua bússola mais inquieta. António Lobo Antunes partiu aos 83 anos, deixando um vazio que só pode ser preenchido pela leitura atenta da sua obra monumental. Para ele, o ato de ler não era um passatempo, mas uma ferramenta de liberdade, pois acreditava convictamente que um povo que lê nunca será um povo de escravos.


​Nascido em Benfica, Lobo Antunes carregou durante décadas a responsabilidade de ser o "caçador de palavras" de uma nação que muitas vezes prefere o silêncio ao confronto com a memória. Como médico psiquiatra de formação, ele sabia que a cura exige coragem para olhar para dentro. Essa mesma coragem levou-o a transformar o trauma da guerra colonial, onde serviu como médico militar entre 1971 e 1973, num dos pilares da sua escrita. Livros como :Os Cus de Judas" e "Memória de Elefante" não foram apenas sucessos literários, foram exercícios de libertação para um país que precisava de se ler para se entender.


​A sua partida marca o fim de uma era de rigor absoluto com a linguagem. Ao longo de quase 30 romances e centenas de crónicas, ele construiu o que chamava de "catedrais de papel", um esforço que lhe valeu o Prémio Camões em 2007 e o reconhecimento mundial ao integrar a prestigiada coleção Pléiade. Mas Lobo Antunes nunca se deixou deslumbrar pelas honras, mantendo sempre aquele seu jeito direto e autêntico ao afirmar que gostava desta nossa terra, com todas as suas imperfeições.


​Dizia ele que ninguém sabe o que é a morte, mas que isso pouco importa porque também nunca chegamos a saber o que é a vida. Talvez a vida seja, afinal, esse lugar insubstituível que cada amigo e cada grande escritor ocupa na nossa existência. "No amor podemos substituir uma pessoa por outra, mas não na amizade", defendia ele, e o mesmo se aplica a este mestre. Não há substituto para a sua voz visceral.


​Hoje, Portugal despede-se do homem, mas o povo que lê continua a ter no seu legado o maior antídoto contra a cegueira e a servidão. A melhor maneira de o honrar é continuar a abrir os seus livros e, como ele sugeria, tomar os outros por aquilo que eles acham que são e deixá-los em paz. O escritor mais inquieto da nossa língua descansa agora, mas a sua inquietação continuará viva em cada página que nos deixou.




 
 

"Mudar o mundo, não é loucura, não é utopia, é justiça". 🩵

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