Raul Brandão: O Homem que Extraía Ternura de uma Pedra
- luispintolisboa
- 13 de mar.
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No aniversário do seu nascimento, Guimarães recorda o escritor que a escolheu para viver, e que a ela voltou para descansar para sempre
Hoje, assinalamos o dia do nascimento de Raul Germano Brandão. Nasceu a 12 de março de 1867, na Foz do Douro, filho de pescadores, neto do mar. Morreu a 5 de dezembro de 1930, em Lisboa, aos 63 anos. Entre esses dois pontos, o nascimento à beira-água e a morte na cidade, ficou uma obra que ainda hoje pulsa, inquieta, incomoda e maravilha. E ficou também Guimarães, a cidade que ele escolheu e que o adoptou, onde construiu casa, viveu as suas melhores estações e onde, em definitivo, repousa.
Havia nele uma estranheza rara: a capacidade de se espantar com tudo. Com uma árvore. Com uma pedra. Com o silêncio de um entardecer. Não era pose literária, era temperamento, uma condição do olhar que nenhuma escola lhe ensinou e nenhum colégio conseguiu apagar. "Ignoro tudo, acho tudo esplêndido, até as coisas vulgares: extraio ternura de uma pedra", escreveu no prefácio das suas Memórias, em janeiro de 1918. Era assim. Raul Brandão não fingiu nada.
Em 1891, talvez por pressão da família, talvez pela necessidade de um sustento certo, Raul Brandão trocou o Curso Superior de Letras pela Escola do Exército. Tinha 24 anos e uma sensibilidade que a caserna iria maltratar durante duas décadas. As suas classificações no Regimento de Infantaria no Porto ficaram para a história com uma honestidade brutal: tiro, atirador de segunda classe; ginástica, medíocre; esgrima, medíocre. Reformou-se em 1912, no posto de capitão, com genuíno alívio. "O Inferno deve ser uma retrete de soldado em ponto maior", dizia.
Mas foi precisamente a vida militar que o trouxe a Guimarães. Em 1896, colocado no Regimento de Infantaria 20, conheceu Maria Angelina de Araújo Abreu, natural de Nespereira. Casaram a 11 de março de 1897, um dia antes do seu aniversário, como se o destino tivesse sentido de oportunidade. E foi em Nespereira, nos arredores de Guimarães, que Brandão construiu a Casa do Alto, o lugar onde passaria todos os verões, onde o contacto com a terra, os ciclos da natureza e as gentes simples alimentaram a sua obra mais profunda.
Com efeito, Guimarães não foi para Raul Brandão apenas uma morada. Foi um estado de alma. As vindimas, as árvores, a luz do Minho, a humanidade rude e generosa das suas gentes, tudo isso entrou na sua prosa com uma força que nenhuma descrição puramente literária conseguiria alcançar. Era a diferença entre quem escreve sobre um lugar e quem pertence a um lugar.
Na verdade, quando morreu em Lisboa, foi sepultado no Cemitério dos Prazeres. Mas em 1934, os seus restos mortais foram trasladados para o Cemitério de Guimarães, onde repousa até hoje. A cidade não o esqueceu: a Biblioteca Municipal carrega o seu nome, uma rua em Lisboa lembra-o desde 1950, e o site oficial da sua obra mantém vivo o diálogo entre a sua escrita e os leitores de cada geração, Brandão afirmava: "O hábito é que me faz suportar a vida."
Reformado do exército em 1912, Brandão entrou na fase mais fecunda da sua vida literária. Em 1917, publicou Húmus, o livro que mudou tudo. Chamaram-lhe anti-romance porque não tem enredo, não tem personagens no sentido convencional, não tem a arquitectura que o romance pedia então. É antes uma meditação sobre a condição humana, escrita num português de contrastes violentos e imagens que se insinuam na memória como música. Eduardo Lourenço descreveu-o como obra em que o único personagem é a própria ficção que agoniza. É ao mesmo tempo uma das obras mais portuguesas do século XX e uma das mais universais.
As influências confluem ali de forma extraordinária: Dostoievski, Kafka, ecos de Camus e de Sartre antes de Sartre existir. O espanto, a angústia, a duplicidade do eu, tudo isso estava já em Brandão quando o existencialismo ainda não tinha nome. "Nós não vemos a vida, vemos um instante da vida", escreveu. Era isso: um autor que via o instante com tal intensidade que o tornava eterno. "Sou ridículo e construí o mundo. Sonho e acabo reduzido a pó", dizia.
Mas Brandão não era apenas o escritor sombrio que Húmus poderia sugerir. Era também o escritor-pintor de Os Pescadores (1923), com as suas descrições do amanhecer sobre o mar que parecem telas impressionistas; o autor de As Ilhas Desconhecidas (1927), onde as viagens aos Açores e à Madeira produziram páginas de luz e cor que ainda hoje informam a imagem das ilhas açorianas, foi ele que fixou os seus famosos códigos cromáticos: Terceira, ilha lilás; Pico, ilha negra; S. Miguel, ilha verde.
Há uma linha que atravessa toda a obra de Brandão e que o distingue dos simbolistas seus contemporâneos: a compaixão radical pelos que sofrem. Os Pobres (1906), Os Pescadores, O Pobre de Pedir (póstumo, 1931), são livros habitados por vagabundos, pescadores, ladrões, moribundos. Não há condescendência nessa escrita. Há reconhecimento. Brandão via nessas figuras uma humanidade mais verdadeira do que a que encontrava nos salões literários, e, assim dizia: "A maior parte da gente nasce, morre sem ter olhado a vida cara a cara."
Descendente de pescadores, ele sabia que o mar era ao mesmo tempo beleza e morte. Os Pescadores tem uma dedicatória simples e devastadora: «
"À memória do meu avô, morto no mar." Era essa a matéria da sua escrita, não a literatura como ornamento, mas como necessidade, como forma de testemunho.
É difícil classificar Raul Brandão. Simbolista? Em parte. Expressionista? Também. Modernista? Antes do modernismo. Precursor do existencialismo, do neo-realismo, até do surrealismo, os críticos encontraram nele todos estes fios, e talvez tenham todos razão. O que é certo é que a sua prosa fragmentária, indisciplinada, emotiva e visionária abriu caminhos que a literatura portuguesa levaria décadas a percorrer na íntegra.
Vergílio Ferreira disse que Brandão estava "no limiar de um mundo". Um mundo onde a ficção se questiona a si mesma, onde a linguagem serve para capturar o que a linguagem não consegue capturar, onde a emoção é o único método de conhecimento que realmente importa, "Não há máscara que não custe a arrancar — há mentiras que têm raízes mais fundas que a verdade."
Hoje, 12 de março, Guimarães recorda o seu filho adoptivo. O homem que construiu uma casa aqui, que amou as vindimas e as árvores do Minho, que partiu e voltou, primeiro em vida, depois para sempre. A Biblioteca Municipal que carrega o seu nome guarda a memória de uma obra que, como ele próprio previu a respeito da vida, se recusa a ser reduzida a pó.
«Se tivesse de recomeçar a vida, recomeçava-a com os mesmos erros e paixões. Não me arrependo, nunca me arrependi. Perdia outras tantas horas diante do que é eterno, embebido ainda neste sonho puído.»
— Raul Brandão, Memórias, vol. I (1919)




