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Elvas: onde o Património ganha Alma e Som

  • luispintolisboa
  • 25 de jan.
  • 2 min de leitura

Enquanto percorria a distância que separa Guimarães da planície alentejana, uma pergunta insistente acompanhava o ritmo do motor: como é que, até hoje, Elvas tinha ficado fora do meu mapa pessoal? A resposta, talvez, resida na geografia e nas acessibilidades que ainda não fazem justiça à importância do destino. Mas o Norte, habituado a distâncias, sabe que o caminho é o prelúdio do prémio. E que prémio.


​A chegada a Elvas faz-se sob o olhar vigilante do Aqueduto da Amoreira. É impossível ficar indiferente àquela que é a maior estrutura do género na Península Ibérica; um gigante de pedra que nos prepara para o que vem a seguir. Mas desengane-se quem pensa que Elvas se esgota no seu aqueduto. Instalado no Hotel D. Luís, rapidamente percebi que estava perante uma cidade-fortaleza que respira história para lá das suas famosas muralhas em estrela.


​Classificada pela UNESCO como Património Mundial desde 2012, a cidade é um museu a céu aberto de engenharia militar. Dos Fortes de Santa Luzia e da Graça aos pequenos fortins de São Mamede, São Pedro e São Domingos, sente-se em cada pedra o peso da defesa do território. No centro histórico, onde o Castelo marca o berço da urbe, perdemo-nos por ruas que desembocam na Praça da República. Pelo caminho, a Igreja de Nossa Senhora da Assunção e a surpreendente planta octogonal da Igreja das Domínicas convivem com o Pelourinho Manuelino e a Torre Fernandina, sob o arco constante das antigas entradas nas muralhas.


​Mas o património de uma cidade não se faz apenas de cantaria. Faz-se de mesa e de gente. No almoço organizado pelo Grémio Transtagano, no Restaurante Vinha da Amada, o Alentejo apresentou-se em todo o seu esplendor: o pão genuíno, a azeitona e o queijo de cabra abriram caminho para um Bacalhau com Espinafres divinal e umas bochechas estufadas em vinho tinto que se desfaziam na boca.


​O momento alto, porém, teria uma banda sonora inesperada. Tive o privilégio de presenciar a atuação das Roncas D’Elvas. Ali, naquele convívio, o som grave e ancestral da ronca — aquele membranofone de fricção que guarda séculos de tradição — transformou um simples almoço num momento de profunda partilha cultural. Ouvir as cantigas tradicionais acompanhadas pelo "ronco" rítmico é entender a alma elvense: é um som que não se explica, sente-se.


​Saio de Elvas maravilhado com o contraste entre o branco e o amarelo das casas e a imponência cinzenta das fortificações. Levo comigo a hospitalidade, a riqueza da Biblioteca Municipal e, acima de tudo, a lição de que o património só está verdadeiramente vivo quando é celebrado com música e fraternidade.

​Elvas, a promessa está feita: hei de voltar.



 
 

"Mudar o mundo, não é loucura, não é utopia, é justiça". 🩵

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