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Dois escudos e três balas: A herança de Catarina Eufémia

  • luispintolisboa
  • 23 de fev.
  • 3 min de leitura

Cuidar da memória histórica não é apenas olhar para trás, é garantir que o passado serve de bússola para não tropeçarmos nos mesmos abismos. Por isso, há nomes que o tempo não consegue desgastar porque deixaram de ser apenas pessoas para passarem a ser os alicerces dessa consciência coletiva. Catarina Eufémia é um desses nomes, uma pedra angular na história da nossa dignidade.

​Nascida a 13 de fevereiro de 1928, Catarina caminharia hoje para o seu centenário se a sua vida não tivesse sido ceifada pela brutalidade policial. O crime? Ter dado o rosto por outras treze ceifeiras para reivindicar um aumento de dois escudos na jorna. O que era a jorna? Era o preço de uma vida entregue ao campo do patrão, de sol a sol, e aqueles dois escudos, o valor exato de um pão, foram o pretexto para o salazarismo disparar sobre a fome. Catarina caiu com o filho de oito meses nos braços, deixando outras duas crianças órfãs de mãe.


​Segundo a autópsia, o cano da arma "estava encostado ao corpo da vítima" quando o tenente Carrajola, da GNR, disparou três tiros contra a mulher que, ali, era a voz da indignação de milhares. Catarina enfrentou a autoridade com a clareza bruta de quem tem fome: "Só queremos trabalho e pão". E, de imediato, uma violenta bofetada atirou-a ao chão. Mas, como escreveu Sophia de Mello Breyner Andresen, "tinha chegado o tempo em que era preciso que alguém não recuasse". Então, Catarina Eufémia ergueu-se da terra e desafiou o seu assassino com a coragem que lhe ditaria o fim: "Já agora, mate-me".


​Catarina converteu-se na bandeira do operariado agrícola e no rosto das mulheres invisíveis do campo, transformando a "fragilidade" descrita na autópsia na força moral de um povo que já não suportava o silêncio. Onde o relatório médico via, com frieza técnica, um "sistema muscular pouco desenvolvido", a história encontrou o símbolo inabalável da luta contra a ditadura. A poeta recorda: "estavas grávida porém não recuaste", Catarina podia não estar grávida de gente, mas, seguramente, estava de justiça.


​A corrupção moral do fascismo tentou, por todos os meios, apagar o rasto do crime. Primeiro, através de um tribunal militar que absolveu o tenente Carrajola sob o pretexto de uma "circunstância acidental", depois, no roubo do próprio funeral, realizado às escondidas e sob escolta, enterrando o corpo em Quintos para silenciar o clamor popular. Mas a memória revelou-se mais forte do que o terror. Catarina personificou a resistência de quem já nada tinha a perder, pois, como Sophia sublinhou, "eras a mulher e não somente a fêmea". A justiça dos homens falhou miseravelmente, mas a justiça da história prevaleceu porque "a terra bebeu um sangue duas vezes puro".


​Hoje, Baleizão não guarda apenas uma ferida aberta, guarda a prova de que há gritos que nem as balas conseguem calar. Catarina Eufémia ensinou Portugal a olhar de frente para a sua própria liberdade, provando que ela é, tal como o pão que reivindicava, um direito que se conquista sem nunca baixar a cabeça. Ensinou-nos a não ceder ao silêncio imposto, seja pelo insulto, pela ameaça, pela violência ou pela morte. Até porque, nove décadas depois, a voz de Catarina continua a ecoar em cada espiga de trigo, lembrando-nos que a dignidade é o único pão que não pode ser negado a ninguém.



 
 

"Mudar o mundo, não é loucura, não é utopia, é justiça". 🩵

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