Do Berço ao Nordeste: Uma Viagem à Alma da Pedra
- luispintolisboa
- 12 de mar.
- 5 min de leitura
Atualizado: 13 de mar.
Chegar a Bragança no final de fevereiro é sentir na pele o peso do isolamento do Nordeste Transmontano. À medida que nos aproximamos, a paisagem transforma-se: a pedra torna-se bruta, robusta e imponente, dominando um horizonte que parece fechar-se sobre nós. O termómetro também não engana, a temperatura desce e o ar torna-se cortante, avisando-nos de que entrámos num território onde a natureza dita as suas regras. Esta austeridade têm até eco nas palavras de Miguel Torga, em "Um Reino Maravilhoso" (1941): “Vê-se primeiro um mar de pedras. Vagas e vagas sideradas, hirtas e hostis, contidas na sua força desmedida pela mão inexorável dum Deus criador e dominador. Tudo parado e mudo. Apenas se move e se faz ouvir o coração no peito, inquieto, a anunciar o começo duma grande hora.” Miguel Torga tinha razão.
Já em Bragança, deixámo-nos envolver pelo ritmo da cidade. Ficámos no Hotel Classis, estrategicamente situado junto à antiga estação ferroviária e a dois passos do Teatro Municipal. É impossível ficar indiferente àquele edifício: uma peça icónica de arquitetura moderna, desenhada por Filipe Oliveira Dias, que se impõe na paisagem com a sua escadaria monumental. Foi o ponto de partida perfeito, com a sua traça contemporânea a contrastar com o que nos esperava logo a seguir, ao caminharmos em direção à histórica Rua Abílio Beça.
Na verdade, confesso que nunca pensei que Bragança guardasse tamanha riqueza cultural. No Museu do Abade de Baçal, fundado em 1915 no antigo Paço Episcopal, ficámos impressionados com o inventário completo do Nordeste Transmontano. Das sociedades recoletoras à romanização, passando pela ourivesaria e numismática, ali respira-se a história social e religiosa da região. Para finalizar, tamanha absorção cultural tivemos ainda o privilégio de terminar a visita com a exposição temporária de Almada Negreiros, cujas ilustrações para o livro "Fábulas" confirmam Bragança como um verdadeiro farol cultural que nos deixou rendidos logo à partida.
Saindo do Museu Abade de Baçal, bastaram poucos metros para o registo mudar radicalmente através da lente humanista de Georges Dussaud, no Centro de Fotografia com o seu nome. Ali, o preto e branco magistral confere uma dignidade eterna aos rostos dos pastores, às paisagens transmontanas da década de 80 e aos ritos e costumes deste território. É um diálogo artístico fascinante, que nos prova que a simplicidade do quotidiano rural é, na verdade, uma forma de poesia visual.
A poucos passos, ainda na mesma rua, o granito dá lugar ao brilho da Igreja da Misericórdia. No seu interior de nave única, o maneirismo e o barroco fundem-se num contraste perfeito entre o branco do reboco e os silhares de azulejos policromáticos em tons de azul, amarelo e branco.
Logo de seguida, entrámos no Memorial e Centro de Interpretação da Cultura Sefardita. É um espaço de uma solenidade absoluta, onde o silêncio parece cortante ao confrontar-nos com a resiliência dos judeus que, nestas montanhas, mantiveram a sua fé viva nas sombras da clandestinidade. É impossível passar por ali sem sentir o peso da tristeza pela perseguição, tortura e morte de tantos apenas por professarem uma crença diferente. Mas o que mais nos inquieta é a constatação da perda irreparável: a riqueza intelectual e o conhecimento que estas comunidades levaram consigo ao fugirem para salvar a vida, deixando o Nordeste, e o país, mais pobres de conhecimento e de humanidade.
A Rua Abílio Beça é, sem sombra de dúvida, o ex-libris cultural de Bragança. É tanta a densidade do que ali se encontra que, infelizmente, o tempo não nos permitiu ir além da entrada do Centro de Arte Contemporânea Graça Morais. Ficou o vislumbre daquela arquitetura de Souto de Moura, que funde a modernidade com as raízes mais profundas da terra, e ficou também a promessa de um regresso. É um espaço que exige o seu próprio tempo, tal como a arte visceral da pintora que lhe dá o nome.
Com efeito, a tarde já se despedia e o frio de fevereiro não dava tréguas. No Largo da Sé, parámos para testemunhar o pôr do sol, admirando aquela luminosidade transmontana, tão crua e única, que banha o granito antes da noite cair. Para restabelecer energias, refugiámo-nos no emblemático Chave d’Ouro. Não havia paio com ervilhas, mas, entre uma bucha e outra, decifrámos o verdadeiro "mistério" local: em Bragança, as portas estão sempre fechadas. Percebemos que não é falta de abertura ou hospitalidade; é pura sobrevivência. Com o ar condicionado a combater o gelo que corre lá fora, aquelas portas cerradas são, afinal, o abraço quente e silencioso que a cidade oferece a quem chega.
Não precisamos de ir longe para encontrar o nosso refúgio de jantar: o Restaurante Poças, ali mesmo na Rua Combatentes da Grande Guerra. O ambiente acolhedor foi o cenário perfeito para uma sopa de peixe fumegante, o antídoto absoluto para o frio. Como prato principal, aceitámos o desafio de um congro grelhado na perfeição; afinal, como bem se diz, “para cá do Marão mandam os que cá estão”. O prato, acompanhado por legumes salteados e batata cozida, foi harmonizado com um vinho maduro branco da região, que trouxe a frescura ideal ao palato. Para fechar a noite em glória, rendemo-nos a uma tarte de castanha e noz, regada com mel e chantilly. É uma sobremesa que condensa, numa só garfada, os sabores mais autênticos e generosos do Nordeste.
No segundo dia, a imersão na gastronomia local continuou no Restaurante Geadas, uma verdadeira escola de sabores. Começámos com uma seleção de entradas que traçam o mapa da região: o pão rústico, a clássica bola e um fumeiro de exceção, com destaque para o azedo, a alheira e a chouriça. Seguiu-se a incontornável posta à mirandesa, grelhada no ponto, com batatas a murro e uma salada fresca, tudo harmonizado com um maduro tinto de castas locais. O pudim de castanha com morangos encerrou a refeição de forma sublime, dando-nos o alento necessário para prosseguir a jornada.
O caminho levou-nos, então, ao histórico Monte da Benquerença. Ao cruzarmos as muralhas da cidadela fundada por D. Sancho I no século XII, a sensação é imediata: o tempo parou. Começámos pelo Largo de S. Tiago, o “Jardim da Porca”, onde um berrão da Idade do Ferro serve de base ao pelourinho. É um encontro poderoso: o paganismo pré-histórico funde-se com a jurisdição feudal da Idade Média, provando que, em Bragança, as camadas do tempo se sobrepõem sem nunca se apagarem.
Dali, admirámos a Domus Municipalis, imaginando as vozes dos "homens bons" que ali se reuniam, sentados sobre a cisterna a decidir o destino da comunidade. De seguida, partimos à descoberta das muralhas, deixando-nos envolver pela robustez daquela fortaleza que parece fundir-se com o próprio monte. Entrámos, finalmente, no Castelo. A sua imponente Torre de Menagem de 33 metros alberga o Museu Militar, um guardião de histórias de fronteira. Ao percorrermos as suas salas, percebemos como este povo, isolado entre pedras agrestes, forjou uma identidade tão resiliente e comunitária.
O momento de maior assombro estava reservado para o topo da Torre. Com a vista a perder-se sobre as montanhas, as palavras de Torga ecoaram com uma clareza absoluta: “Sente-se um calafrio. A vista alarga-se de ânsia e de assombro... A gente entra, e já está no Reino Maravilhoso.” Ali, suspensos entre o céu e o granito, percebemos que tínhamos acabado de atravessar o portal para esse reino.
Ao descermos o monte, com o frio de fevereiro ainda a morder o rosto, percebemos que Bragança não se visita, descobre-se. O que levamos connosco não é apenas a memória do granito bruto, mas a lição de um povo que fez da aspereza da terra a sua maior nobreza. Saímos do Nordeste com a alma cheia, cientes de que, naquele mar de pedras, encontrámos um porto seguro. O Reino Maravilhoso não é um lugar distante no mapa, é um estado de espírito que agora também nos pertence.



