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As Roncas de Elvas

  • luispintolisboa
  • 18 de jan.
  • 2 min de leitura

Há instrumentos que guardam dentro de si a alma de um lugar, e, a Ronca de Elvas é, sem dúvida, um deles.

Este membranofone de fricção pode parecer simples: um pote de barro, uma pele de animal e uma cana fina, mas, o som grave e profundo que emite é capaz de arrepiar quem o ouve pela primeira vez.

Curiosamente, a magia acontece no atrito: com a mão húmida, fricciona-se a cana e o pote amplifica a vibração num "ronco" rítmico e ancestral. Dizem que a sua origem remonta ao século VIII, trazida pelas tribos berberes do Norte de África, e desde então tornou-se um símbolo das nossas zonas raianas.

​Em Elvas, a Ronca é mais do que música, é identidade. É o som que marca o Natal e as Janeiras, unindo a comunidade em torno de cantares que resistem ao tempo. Por isso, não foi por acaso que foi candidata às 7 Maravilhas da Cultura Popular.

​Nesta minha passagem por Elvas, tive o privilégio de ver e ouvir o grupo Roncas D’Elvas. E, ver este instrumento em ação é testemunhar um legado vivo. Fiquei tão fascinado com a história e a musicalidade que não resisti a trazer uma comigo, especialmente sabendo que o valor destas peças reverte para ajudar os mais desfavorecidos da região através da associação local.

​Um objeto simples, um ritual comunitário e uma causa nobre. Levo para Guimarães um pedaço do coração do Alentejo.




O ronco da terra raiana


​O barro moldado, em curva de espera,

Guarda o vazio que o som vai preencher.

É a voz da planície, da gente de outrora,

Que no pote de argila se faz renascer.

Uma pele esticada, de toque ranhura,

Uma cana que fende o silêncio do ar;

É a física simples, em forma de cura,

Que ensina a matéria a saber cantar.


​Não é pelo golpe que a música acorda,

Mas pela fricção de uma mão que se humece.

Como a vida que exige, na sua corda,

O suor e o esforço que o tempo merece.

O ronco é profundo, é cavo e arrastado,

Vindo de tribos que o deserto cruzaram;

Um eco bérbere, no Alentejo guardado,

Nas mãos dos antigos que o preservaram.


​Mas além da mecânica e da tradição,

Há um ritmo de entrega que o som propaga:

A música torna-se pão e missão,

Na mão que se estende e a fome apaga.

Pois de que serve a arte, se for isolada,

Se não aquecer quem o frio devora?

A Ronca de Elvas, na noite gelada,

É o farol de quem ajuda e melhora.

​Que este som telúrico, de grave lamento,

Seja o mote para a nossa própria partilha.

Que a cultura não seja apenas momento,

Mas a semente que em nós se polvilha.

Nesta quadra de partilha e de luz,

Que o ronco nos lembre a nossa verdade:

Que o som mais bonito que o homem produz

É o hino imortal da fraternidade.

 
 

"Mudar o mundo, não é loucura, não é utopia, é justiça". 🩵

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