A imortalidade dos Bons Malandros
- luispintolisboa
- 14 de mar.
- 2 min de leitura
Diz-se que todas as pessoas que partem são especiais e merecem, por direito próprio, uma palavra de apreço. A memória deve ser sempre respeitada, sobretudo quando a existência de quem parte foi pautada pelo respeito ao próximo e pela integridade. No entanto, é inevitável sentirmos que há partidas que nos tocam de forma mais direta. Aliás, há autores que, ao deixarem-nos, parecem levar consigo um pedaço do nosso próprio mundo, precisamente porque nos deram tanto de si. Através da sua arte, fizeram-nos viajar e entender a realidade de uma forma nova, mais rica e profunda.
Mário Zambujal é, sem dúvida, um desses casos que nos obriga a parar. Mesmo que, como eu, não se conheça a totalidade da sua vasta obra, há livros que se tornam marcos incontornáveis na nossa biblioteca pessoal. Recordo-me de ter comprado a minha cópia de Crónica dos Bons Malandros no dia 10 de novembro de 2005. O que mais me impressionou, na altura, foi notar que tinha em mãos a 28ª edição de um clássico que atravessa gerações. Esse número não é apenas uma estatística de vendas, é o reflexo de uma longevidade rara e da capacidade que o autor teve de comunicar com leitores de diferentes épocas.
Ler Zambujal é entrar num universo onde o humor e a elegância caminham de mãos dadas. Ele possuía o dom de observar o quotidiano e a marginalidade com uma ternura que humaniza até o mais imperfeito dos personagens. Quando um escritor com esta sensibilidade parte, a perda é coletiva porque ele era um mestre em traduzir a alma portuguesa sem cair no cliché.
Ficamos com a obra, é certo, mas fica também a saudade de quem sabia olhar para o mundo e transformá-lo em algo muito mais interessante do que muitas vezes é.




